quarta-feira, 7 de julho de 2010

Flor moça e telefone

      Não, não é um conto. Sou apenas um sujeito que escuta algumas vezes, que outra não escuta, e vai passando. Naquele dia escutei, certamente porque era um amiga que falava, e é doce ouvir os amigos, ainda quando não falem, porque amigo tem o dom de amigo se fazer compreender ate sem sinais. Até sem olhos.

      Falava-se de cemitério? De telefone? Não me lembro. De qualquer modo a amiga, --- Bom,  agora me recordo que a conversa era sobre flores --- ficou subitamente grave, sua voz murchou um pouquinho.

--- Sei de um caso de flor que é tão triste!
E sorrindo:
---- Mais você não vai acreditar juro.

     Quem sabe? Tudo depende da pessoa que conta, como do jeito de contar. Há dias em que não depende nem disso: estamos possuídos de universal credulidade. E daí, argumento Maximo, a amiga asseverou que a historia era verdadeira.

-----Era uma moça que morava na Rua General Polidoro--- começou ela. --- perto do cemitério São João Batista. Você sabe, quem mora por ali, queira ou não queira, tem que tomar conhecimento da morte. Toda hora esta passando enterro, e agente acaba por se interessar. Não e tão empolgante como navios ou casamentos, ou carruagem de rei, mais sempre merece ser olhado. A moça, naturalmente, gostava de ver passar enterro do que não ver nada. E se fosse ficar triste diante de tanto corpo desfilando, havia de estar bem arranjada.

   Se o enterro era mesmo muito importante, desses de bispos ou de general, a moça costumava ficar no portão do cemitério, para dar um espiada. Você já notou como coroa impressiona a gente? Demais. E há curiosidade de ler o que esta escrito nelas. Morto que da pena é aquele que chega desacompanhado de flores --- por disposição de família ou falta de recursos, tanto faz. As coroas não prestigiam apenas defunto, mais até o embalam. Ás vezes ate chegam a entrar no cemitério e a acompanhar a préstito até o lugar do sepultamento. Deve ter sido assim que adquiriu o costume de passear lá por dentro. Meu deus, com tanto lugar para passear no rio! E no caso da moça, quando estivesse mais amolada, bastava tomar um bonde em direção a praia, descer no Mourisco, debruçar-se na amurada. Tinha o mar á sua disposição, a cinco minutos de casa. O mar, as viagens, as ilhas de coral, tudo grátis. Mais por preguiça, pelas curiosidades dos enterros, sei lá por que, deu pra andar em São João Batista, contemplando túmulos. Coitada!

--- No interior isso não é raro...
---Mais a moça era de Botafogo.
---Ela trabalhava?

---Em casa. Não me interrompa. Você não vai me pedir a certidão de nascimento da moça, nem sua descrição física. Para o caso que eu estou contando, isso não interessa. O certo e que de tarde começava a passear --- ou melhor, “ deslizar” pelas ruínas brancas do cemitério, mergulhada em cisma. Olhava uma descrição, ou não olhava, descobria uma figura de anjinho, uma coluna partida, uma águia, comparava as covas ricas ás covas pobres, fazia cálculos de idade de defuntos,considerava retratos em medalhões ---- sim, há de ser isso que ela fazia por lá, pois que mais poderia fazer? Talvez subisse ao morro, onde esta a parte nova do cemitério, com as covas mas modestas. E deve ter sido lá que, numa tarde, ela apanhou uma flor.

----- Que flor?
----- Uma flor qualquer. Margarida, por exemplo. Ou cravo. Pra mim foi margarida, mais é puro palpite, nuca apurei. Apanhou com um gesto vago e maquinal que a gente tem diante de um pé de flor. Apanha, leva ao nariz ---- não tem cheiro, como inconscientemente já se esperava ----, depois amassa a flor, joga para um canto. Não se pensa mais nisso.
   Se a moça jogou a margarida no chão do cemitério ou no chão da rua, quando voltou para casa, também ignoro. Ela mesma se esforçou mais tarde para esclarecer esse ponto, mais foi incapaz. O certo é que já tinha voltado, estava em casa bem quietinha havia poucos minutos, quando o telefone tocou, ela atendeu.

   ---Aloooô...
   ---Quedê a flor que você tirou de minha sepultura?
A voz era longínqua, pausada, surda. Mais a moça riu. E, meio sem compreender:
   --- O que?
Desligou. Voltou para o quarto, para suas obrigações. Cinco minutos depois o telefone chamava de novo.
---Alô.
---Quedê a flor que você tirou de minha sepultura?
 Cinco minutos dão para a pessoa mais sem imaginação sustenta um trote. A moça riu de novo, mais preparada .

-- - Esta aqui comigo, vem buscar.

No mesmo tom lento, severo, triste, a voz respondeu:

--- Quero a flor que você me furtou. Me dá minha florzinha.

Era homem, era mulher? Tão distante, a voz fazia-se entender, mais não se identificava. A moça topou a conversa:

--- Vem buscar estou te dizendo.

--- Você bem sabe que eu não posso buscar coisas nenhuma, minha filha. Quero minha flor, você tem a obrigação de devolver.

---- Mais quem esta falando aí?

----Me dá minha flor, eu estou te suplicando.

---- Diga o nome, senão ou não dou.

---- Me dá minha flor, você não precisa dela e eu preciso.

Quero minha flor, que nasceu na minha sepultura.

O trote era estúpido, não variava, e a moça, enjoada logo, desligou. Naquele dia não houve mais nada.

Mais no outro dia houve. Á mesma hora o telefone tocou. A moça inocente, foi atender.

---Alô!

---Quedê a flor...

    Não ouviu mais. Jogou o fone no gancho, irritada mais que brincadeira é essa! Irritada voltou a costura. Não demorou muito, a campainha tinia outra vez. E antes que a voz lamentosa recomeçasse:

---Olhe, vire a chapa. Já esta pau.

---Voce tem que dar conta da minha flor --- retrucou a voz de queixa. --- Pra que foi mexer logo na minha cova? Você tem tudo no mundo, eu, pobre de mim, acabei. Me faz muita falta aquela flor.

--- Esta é fraquinha. Não sabe de outra?

    E desligou. Mas, voltando ao quarto, já não ia só. Levava consigo a idéia daquela flor, ou antes, a idéia daquela pessoa idiota que a vira arrancar uma flor no cemitério, e agora aborrecia pelo telefone. Quem poderia ser? Não lembrava de ter visto nenhum conhecido, era distraída por natureza. Pela voz não parecia fácil acertar. Certamente se tratava de voz disfarçada, mais tão bem que não se podia saber o certo se de homem ou de mulher. Esquisito, é uma voz fria. E vinha de longe, como de interurbano. Parecia vir de mais longe ainda... Você esta vendo que a moça começou a ter medo.

--- E eu também..

---Não seja bobo. O fato é que aquela noite ela custou a dormir. E daí por diante é que não dormiu mesmo nada. A perseguição telefônica não parava. Sempre á mesma hora, no mesmo tom. A voz não ameaçava, não crescia de volume: implorava. Parecia que o diabo da flor constituía para ela a coisa mais preciosa do mundo, e que o sossego éter --- admitindo que se tratasse de pessoa morta --- ficara dependendo de instituição de além mais, não queria se amofinar. No quinto ou sexto dia, ouviu firme a sentinela da voz e depois passou-lhe uma bruta descompostura. Fosse amolar o boi. Deixasse de ser imbecil (palavra boa, porque convinha a ambos os sexos). E se a voz não se calasse, ela tomaria providências.

    A providência consistiu em avisar o irmão e depois o pai. (A intervenção da mãe não abalava a voz.) Pelo telefone, pai e irmão disseram as últimas á voz suplicante. Estavam convencidos de que se tratava de alguns engraçados absolutamente sem graça, mas o curioso é que, quando se referiam a ele, diziam “ a voz”.

--- A voz chamou hoje? --- indagava o pai, chegando da cidade.

---Ora. É infalível --- suspirava a mãe, desalentada.

    Descomposturas não adiantavam, pois, ao caso. Era preciso usar o cérebro. Indagar, apurar na vizinhança, vigiar os telefones públicos. Pai e filho dividiam entre se as tarefas. Passaram a freqüentar as casas de comercio, os cafés mais próximos, as lojas de flores, os marmoristas. Se alguém entrava e pedia licença para usar o telefone, o ouvido espião se afinava. Mas qual. Ninguém reclamava flor de jazigo. E restava a rede dos telefones particulares. Um em cada apartamento, dez, doze no mesmo edifício. Como descobrir?

    O rapaz começou a tocar para todos os telefones da rua General Polidoro, depois para todos os telefones das ruas transversais, depois para todos os telefones da linha dois-meia... Discava, ouvia o alô, conferia a voz --- não era ---, desligava. Trabalho inútil, pois a pessoa da voz devia esta ali por perto --- o tempo de sair do cemitério de tocar pra moça --- e bem escondida esta ela, que so se fazia ouvir quando queria, isto é, a certa hora da tarde. Essa questão de hora também inspirou á família algumas diligências. Mais infrutíferas.

     Claro que a moça parou de atender telefone. Não falava mas nem para as amigas. Então a “voz”, que não deixa de pedir, se outra pessoa estava no aparelho, não dizia mais “ você me da minha flor”, mais “quero minha flor”, “ quem furtou minha flor tem que restituir” etc. Diálogo com essas pessoas a “voz” não mantinha. Sua conversa era com a moça. E a “voz” não dava explicações.

   Isso durante quinze dias, um mês, acaba por desesperar um santo. A família não queria escândalos, mais teve que queixar-se á policia. Ou a policia esta ocupada em prender comunistas, ou investigações telefônicas não era sua especialidade --- o fato é que não se apurou nada. O pai correu á companhia telefônica. Foi recebido por um cavalheiro amabilíssimo, que coçou o queixo, aludiu a fatores de ordem técnica...

--- Mas é a tranqüilidade de um lar que eu venho pedir ao senhor! É o sossego de minha filha, de minha casa. Seria obrigado a me privar de telefone?

--- Não faça isso, meu caro senhor. Seria uma loucura. Aí é que o senhor não  apura nada mesmo. Hoje em dia é impossível viver sem telefone, radio e refrigerador. Dou-lhe um conselho de amigo. Volte para sua casa, tranqüilize a família e aguarde os acontecimentos. Vamos fazer o possível.

    Bem, você esta percebendo que não adiantou. A voz sempre mendigando a flor. A moça perdendo o apetite e a coragem. Andava pálida, sem ânimo para sair á rua ou para trabalhar. Quem disse que ela queria mais ver enterro passando? Sentia-se miserável, escravizada a uma voz, a uma flor, a um vago defunto que bem sequer conhecia. Porque --- já disse que era distraída --- nem mesmo se lembrava da cova de onde arrancara aquela maldita flor. Se ao menos soubesse...

    O irmão voltou de São João Batista dizendo que, do lado por onde a moça passeava aquela tarde, havia cinco sepulturas plantadas. A mãe não disse coisas alguma, desceu, entrou numa casa de flores da vizinhança, comprou cinco ramalhetes colossais, atravessou a rua como um jardim vivo e foi derramá-los motivamente sobre os cinco carneiros. Voltou para a casa e ficou á espera da hora insuportável. Seu coração lhe dizia que aquele gesto propiciatório havia de aplacar a mágoa do enterrado – se é que os mortos sofrem, e aos vivos é dado consolá-los, depois os haver afligidos.

     Mas a “voz” não se deixou consolar ou subornar. Nenhuma outra flor lhe convinha senão aquela, miúda, amarrotada, esquecida, que ficara rolando ao pó e já não existia mais. As outras vinham de outra terra, não brotava de seu estrume --- isso não dizia a voz, era com se dissesse. E a mãe desistiu de novas oferendas, que já estavam no seu propósito. Flores, missas, que adiantava?

     O pai jogou a ultima cartada : espiritismo. Descobriu um médium fortíssimo, a quem expôs longamente o caso, e pediu-lhe que estabelecesse contato com a alma despojada de sua flor. Compareceu a inúmeras sessões, e grande era sua fé de emergência, mais os poderes sobrenaturais se recusaram a cooperar, ou eles mesmos são impotentes, quando alguém quer alguma coisa até sua ultima fibra, e a voz continuou, surda, infeliz, metódica. Se era mesmo de vivo ( como as vezes a família ainda conjeturava, embora se apegasse cada dia mais a uma explicação desanimadora, que era a falta de qualquer explicação lógica para aquilo). Seria de alguém que houvesse perdido toda a noção de misericórdia; e se era de morto, como julgar, como vencer os mortos? De qualquer modo, havia no apelo uma tristeza úmida, uma infelicidade tamanha que fazia esquecer o seu sentido cruel, e refletir: até a maldade pode ser triste. Que era possível compreender mais do que isso. Alguém pede continuamente uma certa flor, e essa flor não existe mais para lhe ser dada. Você não acha inteiramente sem esperança?

---- Mas, e a moça?

---- Carlos, eu preveni que meu caso de flor era muito triste. A moça morreu no fim de alguns meses, exausta. Mas sossegue, pra tudo há esperança: a voz nunca mais pediu.



Contos de aprendiz ( Carlos Drummond de Andrade )

Aqui fica o meu carinho, as grandes literaturas,

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